segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A quarta-feira de cinzas está melhor depois do Morreu Donzelo


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Naquela época tudo era triste. Depois que o Bacalhau do Batata passava pela rua do Guadalupe já estava sacramentado o FIM DO CARNAVAL, e isso ainda era por volta do meio dia. Na verdade ainda havia O Guarda Noturno, que desfilava às 20 horas, mas os foliões já não possuíam a mesma empolgação dos dias de Momo.
Parecia uma noite normal, de um dia qualquer. Com nada parecia aquelas noites cheias de alegria, luzes, fantasias e completa irreverência que literalmente contaminam a Cidade de Olinda, no carnaval.
O sentimento de todos era bem representado pela música de Luiz Bandeira “É de fazer chorar, quando o dia amanhece e obriga o frevo acabar...”. E foi assim, com a tristeza de uma despedida, de um enterro, que começou a história do Morreu Donzelo.
Na verdade a brincadeira era conhecida como O Enterro do Carnaval. Alguns moradores mais antigos (nem tão antigos assim) lembram muito bem quando às 18 horas das quartas-feiras de Cinzas passavam pelas ruas do Guadalupe, certos foliões que verdadeiramente negavam o fim do carnaval e faziam daquele cortejo uma verdadeira festa, cheia de irreverência. Carregavam um boneco acomodado em uma rede de descanso e acompanhados por um surdo e um caixa, entoavam a canção “... passou o carnaval e ele morreu donzelo”.
Todos esperavam a passagem do Enterro. Apagavam-se as luzes e as velas iluminavam o último instante da folia.
Mas com o passar dos anos essa brincadeira acabou, alguns desistiram, outros já não estavam mais entre nós e a noite da quarta-feira perdeu o riso. Só restaram cinzas, nada mais que isso!Ressuscitar o carnaval, ouvir novamente o surdo ecoar nas ladeiras, os gritos, os risos, o HINO “... passou o carnaval e ele morreu donzelo”. Vestir preto e colorir uma noite monocromática, em tom de cinza. Esticar um pouco mais a alegria e fazer valer a Olindensidade. O carnaval ainda não acabou!
Foi assim que aconteceu. Aos trancos, barrancos, paus, pedras e flores. Em cima da hora, um caixão improvisado, um menino em cima (Tico de Maga) segurando um Falo, todo mundo na rua. Cadê o surdo? Cadê o caixa? Que maravilha! O que é aquilo? É o Enterro do Carnaval! Não, é o MORREU DONZELO!
Em 1997 o primeiro desfile. Junior de "Cormo", Kiko, Ricardinho, Chocó e Pula. No ano seguinte Bruno do CRA, depois Guilherme. Mais tarde Ana Paula, David, Ricardo Wanderley e Ana Cristina.
O caixão quem fazia era Raul de Moura, o boneco emprestado por Iolanda, a alegria era de todos.Em 2004 o MORREU DONZELO ficou importante e o grandioso Sílvio Botelho confeccionou um Falo modesto, 50 cm. No ano seguinte Botelho fez o Falo crescer e dobrou o tamanho. Em 2008 teve até orquestra.
É, o MORREU DONZELO está melhor a cada desfile. E no ano que vem?
Ano que vem vai ser melhor ainda, ano que vem vai ter tudo isso e muito mais. Ano que vem vai ter EU, VOCÊ, ELE, ELA, TODO MUNDO VAI!
Coincidência ou não o carnaval de Olinda não mais acaba no Bacalhau do Batata. Agora tem Encontro de bois, o Bloco de Selma do Coco, Encontro de Afoxés. É! A quarta-feira de cinzas não é mais a mesma. Ainda sobrevivem as cores, o brilho, a alegria. Ainda ouvem-se o surdo e agora também as alfaias, os atabaques e os clarins.
Pois é, coincidência ou não a quarta-feira de cinzas não é mais a mesma. A quarta-feira de cinzas está melhor depois do MORREU DONZELO.
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Texto de Cosme de Castro Jr.
Presidente


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